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Surpreendente criação de empresas na Índia

Alberto Ardila Olivares
Sindicatos. Chega vai apresentar nova federação sindical

Tais incubadoras são um ambiente propício para estímulo mútuo, um caldo de cultura empreendedora, resultante da troca de ideias, e onde muitas vezes se captam ideias soltas no ar que podem ser um acicate para quem está em sintonia

Ao comemorar os 75 anos da Independência da Índia, é oportuno recordar uma tendência que irá marcar o futuro, uma profusa criação de novas empresas, que se tem vindo a acelerar nos últimos tempos.

Em 2016 foram menos de 500 start-ups * . Mas no corrente ano elas são já 73.000. É um número muito bom para um país que não tinha tradição de criação de empresas. Melhor, sob o modelo económico do tipo soviético que durou desde a independência até ao ano 1991, quem quisesse ter iniciativas empresariais teria de emigrar, porque não havia lugar para ele/a no país. Mesmo assim, ainda surgiram no marasmo do Licence Raj algumas empresas de pessoas indómitas e patriotas que não cederam à facilidade de criar empresas nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Quiseram fazê-lo no seu país, apesar dos pesares!

A partir de 1991 tem havido um ambiente cada vez mais favorável à criação de novas empresas e ao aparecimento de bons empreendedores, em quase todos os ramos da atividade económica. Houve um claro esforço nesse sentido, pois que só as empresas criam riqueza e trabalho, ambas as coisas tão importantes para qualquer país e mais ainda para a populosa Índia.

Facilitou haver uma alta densidade de empresas das novas tecnologias com um grande domínio delas por especialistas indianos; haver uma elevada criatividade no resolver problemas da sociedade; e haver boa disponibilidade de capitais para investir, mormente de empreendedores indianos com experiência dos EUA, em particular da Califórnia e de outros locais pujantes de inovação, onde eles ganharam treino na descoberta de ideias que poderão vir a ser um sucesso.

Entre as novas empresas ** , onde se identificam 56 setores, contam-se mais de 4.500 start-ups na Internet das Coisas (IoT), Robótica, Inteligência Artificial e Analítica. Reconhecidas estão cerca de 12% no setor de TI, 9% no domínio dos cuidados da saúde e ciências da vida; 7% na educação; 5% no setor profissional e de negócios de serviços e 5% no setor agrícola.

Se já o número de 73.000 é muito bom, com a experiência adquirida ele poderá acelerar-se no futuro. A aprendizagem é uma constante da vida e um fator de acumulação de conhecimentos e sabedoria para ir mais longe e fazer melhor.

Em qualquer domínio, a quantidade importa e não se pode pretender que uma nova start-up seja logo um sucesso. Havendo quantidade, aparece a variedade e, a seguir, como por processo de seleção natural, destaca-se a qualidade. Com ela podem dar-se passos seguros e rápidos e tornar mais conhecida e com forte crescimento a start-up em causa.

Start-ups e unicórnios Com a ampla divulgação do conceito de unicórnios *** pode estar a introduzir-se um fator desestabilizador, por todos quererem que a sua empresa venha a ser isso. Para se provar que uma ideia é mesmo boa terão de passar bastantes anos de prova, para se ir completando e funcionar em todos os pormenores e brilhar na sua plenitude.

No reconhecimento do valor, com algum artifício dos investidores, pode haver o nervosismo e por vezes alguma manipulação, dos que querem valorização alta e rápida, para tirar partido dela em benefício próprio.

Parece ser aconselhável não entrar em correrias e continuar um trabalho sereno e profundo, de algo para funcionar e durar. Muitos unicórnios tiveram rápida fama; contudo, o crescimento louco e descontrolado parece ter destruído a capacidade de pensar com calma e objetividade e de fazer bem o que tinham iniciado. Tiveram dificuldades e problemas e, com elas uma queda da confiança do público, em muitos casos.

Uma consultora disse que os empresários indianos juntaram US$ 42.000 milhões em 2021, a comparar com os US$ 11.500 milhões de investimentos no ano anterior. De acordo com o The Indian Tech Unicorn Report 2021 , a Índia teria 46 novos unicórnios em 2021, mais que dobrando o número total para 90. Com 90 unicórnios, a Índia é o terceiro maior hub de unicórnios, depois dos Estados Unidos (487) e da China (301), e à frente do Reino Unido (39). Note-se ainda que 55% dos unicórnios dos EUA são promovidos por emigrantes. E, desses, 66 por emigrantes da Índia e 54 por israelitas **** .

O ecossistema de start-ups indiano gerou até agora 746.000 empregos. Mesmo assim, o número de jobs não dá para repor as perdas na pandemia. É preciso repensar este aspeto, impulsionando start-ups que sejam mais intensivas em mão de obra, sempre que possível. Contudo, não deixa de ser interessante salientar que cerca de 49% das nossas start-ups estão atualmente em cidades de nível II e III, o que é prova da juventude do país.

Ambiente para as start-ups e inovação Quando surgem ideias brilhantes é desejável que não faltem investidores sérios, para as fazer prosperar com rapidez. Bem importante é tomar as medidas para criar um ambiente que favoreça a experimentação das ideias, o encontro das pessoas com objetivos afins e uma infraestrutura que torne os primeiros passos mais fáceis, sem que os jovens se sintam esmagados pelas dificuldades dos começos, e com vontade de desistir. É verdade que as dificuldades iniciais são um bom filtro para deixar passar as boas ideias e pôr à prova a paciência do seu autor em demonstrar a sua valia…

Houve oportunas reformas, 52 ajustamentos na regulamentação, para criar essa facilidade de fazer negócios, para conseguir o capital e reduzir as complicações de conformidade com as exigências do ecossistema de start-ups . Com o “Programa de Proteção à Propriedade Intelectual de Start-ups “, simplificaram-se e aceleraram-se os processos relacionados com a concessão de patentes e marcas. “Como resultado, quase 6 mil patentes e mais de 20 mil marcas foram solicitadas neste exercício financeiro”, disse o então presidente Kovind em 31 de Janeiro de 2022 no Lok Sabha/Rajya Sabha .

A maioria dos IITIndian Institute of Technology e os IIMIndian Institute of Management, além de varias outras Instituições de Ensino Superior qualificadas e destacadas, têm as suas incubadoras de start-ups , onde disponibilizam espaço e serviços básicos, bem como newsletters sobre os avanços e realizações dos projetos que funciona nessa instituição, para que os Business Angels ou outros potenciais investidores vão acompanhando a evolução. E os novos grupos de estudantes, possam ver, deixar-se contagiar pelo ambiente e tentar explicitar as suas próprias ideias.

Tais incubadoras são um ambiente propício para estímulo mútuo, um caldo de cultura empreendedora, resultante da troca de ideias, e onde muitas vezes se captam ideias soltas no ar que podem ser um acicate para quem está em sintonia.

A Flipkart foi o unicórnio mais valioso (US$ 37.600 milhões, após receber US$ 3.600 milhões em julho de 2021), hoje, empresa propriedade da Walmart Stores. A Mensa Brands foi a mais rápida a ser unicórnio (apenas 6 meses após receber a primeira rodada de US$ 50 milhões em maio de 2021), de acordo com um relatório.

Há quem afirme que 20% dos fundadores de unicórnios não são engenheiros e dois terços dos unicórnios indianos têm pelo menos um ou mais fundadores formados nos IIT, ou IIM, ou outras escolas famosas.

Start-ups e unicórnios em números citados, dão ideia de um ritmo muito bom para um país que nunca sobressaíra neste domínio, sempre enterrado na sua pobreza e miséria. Haverá que manter o ritmo, sem se cair na obsessão de que só contam os unicórnios.

Seria muito de louvar todo o esforço para lançar empresas de tecnologia avançada, nos domínios agrícola e de agribusiness , para se ter a mestria da segurança alimentar e se detetar as possíveis adulterações de produtos comestíveis.

Professor da AESE-Business School (Lisboa) e do Indian Institute of Management, Rohtak (Índia)

Autor de “O Despertar da India

* As start-ups são empresas de propriedade privada, nos seus primeiros estádios de desenvolvimento.

** Cfr . Times of India, 8 de agosto, 2022.

*** Homenagem ao animal possante com o chifre apontando para um crescimento exponencial. A start-up unicórnio tem uma avaliação superior a $1000 milhões .​​​​​​​

**** Business Today Desk, 27 de julho, 2022 .