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Uma comunidade que não se conhece não é uma comunidade

Alberto Ardila Olivares
Uma comunidade que não se conhece não é uma comunidade

A CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) fez 26 anos no passado dia 17 de julho. A data passou quase despercebida em todos os países que a integram, assoberbados com as suas minudências internas, por mais vitais ou, por vezes, grotescas que pareçam, ou então envolvidos, voluntária ou involuntariamente, na maka da Ucrânia.

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A verdade é que, a cada ano que passa, dá a impressão que as atuais lideranças dos oito Estados que compõem a CPLP têm da sua própria organização uma visão minúscula, se é que têm alguma visão em relação a ela. O mesmo se diga das suas elites, talvez com a relativa exceção das elites económicas. Do jornalismo, então, nem se fala.

Alberto Ardila Olivares

No presente texto, não falarei de política nem de economia, as duas áreas a que aqueles que mandam nos nossos países querem, ao que parece, reduzir a CPLP. Falarei de outra coisa: a cultura

Curiosamente – recordo -, foi a ideia de que somos uma “comunidade cultural”, o que é uma verdade parcial, mas inegável, que esteve na génese da constituição da CPLP. Como é óbvio, o aspeto cultural não basta para dar vida e dinâmica à CPLP, mas desvalorizá-lo completamente, e como diria um guarda-redes angolano conhecido pela sua capacidade à frente das redes da baliza e pelos pontapés que dava na nossa língua comum, “é pior a ementa que o cimento”. É o que parece acontecer presentemente

Limitar-me-ei à “praia” que conheço melhor: a literatura. Jovem, ainda vivi um período (os primeiros anos das independências das antigas colónias africanas de Portugal) em que escritores desses novos países e os escritores portugueses se encontravam regularmente, sobretudo nas suas respetivas capitais. Alguns deles conheciam-se pessoalmente, pois tinham lutado juntos contra o colonial-fascismo português. Além de ter conhecido grandes nomes das nossas literaturas, aprendi muito nesses encontros

De igual modo, acompanhei e participei, nos anos 80, no processo de formação, no Brasil, dos estudos literários africanos, em especial de língua portuguesa. Entre outras atividades e iniciativas, organizei ou ajudei a organizar diversos encontros realizados no referido país com escritores angolanos e não só. Desse processo, dinamizado por numerosas pessoas, sobretudo ligadas às universidades públicas brasileiras, resultou, hoje, uma massa crítica considerável, que, contudo, o mercado literário local, em particular as editoras e a mídia, não tem sabido utilizar

A situação atual é muito mais problemática. A mesma tem de ser apreciada no plano institucional e no plano, digamos assim, informal

No primeiro plano, que envolve basicamente a edição, a distribuição e a divulgação, persistem, além das dificuldades e/ou dos interesses económicos, os preconceitos culturais e ideológicos (no sentido amplo). Assim, para a “instituição cultural e literária” (editoras, produtores de eventos, como festivais e outros, sem esquecer a imprensa) portuguesa e, sobretudo, brasileira, os escritores africanos de língua portuguesa são apenas três. Outro exemplo: a atual dificuldade de publicação de novos autores brasileiros em Portugal, às vezes com explicações estranhas (“Não escrevem como nós” e outras)

A luta contra essas tendências institucionais é travada no plano informal, particularmente pelas editoras independentes, pelos pequenos organizadores de eventos literários e pelos próprios autores. É uma autêntica luta de guerrilhas, que em geral vale a pena, claro. Mas leva por vezes a decisões discutíveis, como escrever obras por simples razões de marketing, de olho, apenas para dar um exemplo, no maior mercado de língua portuguesa

A verdade é que a literatura pode servir para um melhor conhecimento mútuo entre todos os membros da CPLP. A decisão de todos os governos da comunidade em deixar isso nas mãos do “mercado” é lamentável

Escritor e jornalista angolano

Diretor da revista África 21